segunda-feira, 12 de setembro de 2011

PMs envolvidos em 'mensalão' poderão ser expulsos da corporação

Após reportagem de 'O DIA', capitão e tenente são exonerados da unidade pacificadora

Rio - O mensalão da UPP da Coroa, Fallet e Fogueteiro, no Catumbi, noticiado neste domingo por O DIA, resultou no afastamento do comandante e do subcomandante da unidade de pacificação, respectivamente o capitão Elton Costa e o tenente Rafael Medeiros. Os dois estão entre os 30 agentes da unidade investigados no esquema de corrupção em que propinas fixas vinham sendo pagas regularmente pelos traficantes aos policiais.

A ‘caixinha’ foi descoberta pela Coordenadoria de Inteligência da PM. De acordo com as apurações, traficantes da região pagam de R$ 400 a R$ 2 mil — totalizando mais de R$ 53 mil por mês — ao grupo, para que ações de combate aos criminosos não sejam desencadeadas. Os valores eram proporcionais à patente e à importância do agente na estrutura do policiamento.
Coronel Mário Sérgio (D) anunciou afastamento de comandante da UPP | Foto: Carlos Moraes / Agência O Dia
O anúncio da exoneração dos oficiais foi feito em entrevista coletiva convocada pelo comandante-geral da Polícia Militar, coronel Mário Sérgio Duarte, e pelo chefe do Comando de Polícia Pacificadora, coronel Robson Rodrigues.
“Tomaremos uma série de medidas administrativas e, certamente, afastaremos os dois comandantes”, afirmou Mário Sérgio, adiantando que outros PMs da unidade serão afastados por envolvimento no esquema ou por outras razões administrativas.

Segundo ele, o Inquérito Policial Militar, iniciado há 60 dias, será concluído em menos de uma semana e poderá culminar na expulsão dos envolvidos da corporação. “Não vejo outra saída para policiais que se envolvem com esse tipo de crime, que não seja a porta de saída”, disse Mário Sérgio. Rodrigues disse que o afastamento dos responsáveis pela UPP é “questão de conveniência”.

“Não estamos afirmando que eles (Elton e Rafael) estão ou não estão envolvidos. Mas não vamos nos furtar de tomar medidas duras contra quem ocupe qualquer posição no escalão. E mesmo que não estejam, é da conveniência que troquemos o comando”.

Mário Sérgio evitou entrar em detalhes, alegando segredo de Justiça, mas exaltou a investigação, iniciada após denúncias de moradores. “É um alerta para outros policiais mal-intencionados. Nosso monitoramento se estende a toda a corporação”, advertiu.

Estrutura de empresa

O mensalão montado por traficantes para subornar PMs da UPP do Catumbi tinha estrutura de empresa. Da coleta do dinheiro até a distribuição dos envelopes com propina, cada etapa era feita por um agente de folga e sem farda, para evitar reconhecimento. A ‘caixinha’ era contabilizada e envelopada em local fora de suspeita e cercado de segurança: na Rua Marques de Pombal, a poucos passos do Batalhão de Choque e da Academia da Polícia Civil. O levantamento da Coordenadoria de Inteligência da PM mostra que cinco dos 30 PMs investigados eram os responsáveis pela coleta, feita sempre à noite e nunca em becos ou dentro das comunidades.

UPP abre canal para denúncias

O comandante geral da PM, coronel Mário Sérgio Duarte, garantiu que não há indícios de que esquema de corrupção semelhante ao da unidade da Coroa, Fallet e Fogueteiro ocorra em outras UPPs. “Não detectamos isso em outras unidades. Mas nosso monitoramento é constante ”, afirmou, ressaltando, porém, que denúncias podem ser feitas pelos telefones 2333-2757 ou 2333-2753.

Policiamento é reforçado após conflitos

Neste domingo, após os confrontos entre PMs e traficantes de sábado, o policiamento foi reforçado nos morros da Providência e da Coroa, Fallet e Fogueteiro. Atingido por disparo na traqueia no Fogueteiro e com a bala alojada na coluna, o soldado Fávaro Rocha Coutinho, 30 anos, está em coma induzido no Hospital Geral da PM e corre risco de ficar tetraplégico.

Mas Mário Sérgio acredita que os confrontos e o esquema de corrupção no Catumbi não mancharão a imagem das UPPs: “Pelo contrário, é resposta à comunidade de que estamos sempre atentos (a desvios de conduta) e a traficantes de quadrilhas desmanteladas que insistem em tentar voltar a áreas pacificadas”.

Números

30 PMs
São investigados pela Corregedoria da PM. Eles foram afastados e destacados ao batalhão de origem

R$ 2 MIL
Valor a que chegavam as quantias pagas a cada policial para fazer vista grossa para atuação do tráfico

R$ 53 MIL
Valor que o grupo de PMs arrecadava por mês com a ‘caixinha do tráfico’ na UPP da Coroa, Fallet e Fogueteiro
Reportagem: Francisco Edson Alves e João Antônio Barros

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

UPP no Alemão começará a ser instalada em março, diz Beltrame (Postado por Erick Oliveira)

A Unidade de Polícia Pacificadora do Conjunto de Favelas do Alemão vai começar a ser instalada em março do ano que vem, segundo o secretário de segurança pública do Rio, José Mariano Beltrame. Em entrevista à Rádio CBN nesta quinta-feira (8), o secretário afirmou que os policiais vão chegar na comunidade de forma gradativa.
Segundo Beltrame, pelo menos nove bases administrativas serão montadas, além de bases comunitárias. Ao todo, o efetivo deve ser de 2.200 homens.
“Em primeiro lugar é claro que há previsão para essa instalação a partir de março, 500 homens em março, 500 em abril, 500 em maio e 700 em junho, mas a manutenção do Exército naquela área, no nosso entendimento, é muito maior que isso", disse o secretário.
Segundo ele, a ocupação do Alemão, que aconteceu em novembro do ano passado, foi antecipada. "O Alemão era para ser feito no final desse ano e no início do ano. O Exército veio, nos ajudou e está ajudando, e aí por que desfazer essa parceria?”, explicou Beltrame, ressaltando que a presença do Exército no Alemão permite o remanejamento de policiais militares para o patrulhamento em outras áreas do estado.
"A permanência dele (o Exército) lá nos permite devolver policiais para o interior, nos permite fazer alguns remanejamentos, botar alguns policiais em estágio em outras UPPs e atender o Alemão a partir de março dentro desse cronograma", completou Beltrame.
O governador Sério Cabral disse que a presença do Exército no Alemão tem um papel histórico e revolucionário e está ajudando muito o governo do estado a preparar a instalação da UPP já agora em março.
As Forças de Pacificação ficam até junho. Segundo o governador, os meses de abril e maio servirão como período de migração. Ainda segundo Cabral, a esmagadora maioria de moradores do Alemão aprova a presença das Forças de Pacificação.
“É evidente que existe tentativa de boicote, o que é natural que ocorra por conta daqueles que perderam o poder. Sem querer fazer uma ligação direta, na semana em que os houve episódios, houve também uma grande operação do Exército junto com a ANP (Agência Nacional do Petróleo) para combater a venda de botijões ilegais no Alemão. Isso causou um prejuízo enorme a quem vinha explorando a comunidade”.
Sérgio Cabral disse que o morro do Alemão era um hub, o que significa um grande centro de distribuição de atividades criminosas. As declarações do governador foram feitas na manhã desta quinta-feira (8) durante a inauguração da reforma da sede da Loteria do Estado do Rio de Janeiro, no Centro da cidade.
Depois dos conflitos que assustaram os moradores do Conjunto de Favelas do Alemão, na Zona Norte do Rio, a população retoma aos poucos a sua rotina. Segundo o coronel Nilson Maciel, comandante da Força de Pacificação, a madrugada desta quinta-feira (8) foi tranquila na comunidade. O patrulhamento segue reforçado na área.
"A população está agindo normal como todos os dias da semana", disse o coronel, que reforçou a informação de que não houve novos conflitos durante o feriado de 7 de setembro. "As coisas se inflamam e se apagam muito rápido aqui", explicou.
Traficantes de fora
Em coletiva na quarta-feira (7), o general Adriano Pereira Júnior, que está à frente do Comando Militar do Leste, disse que os confrontos no Alemão foram articulados por traficantes que estão em outras favelas e que querem voltar a dominar a área.
"Tenho certeza de que esse primeiro ataque no Alemão foi articulado por grupos em outras comunidades não pacificadas que estão querendo voltar ao Alemão", afirmou o general. Ele disse ainda estar investigando suspeitas de que um traficante foragido da Vila Cruzeiro poderia estar por trás da ação.
Já o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, afirmou que traficantes tiveram acesso ao Alemão pela Vila Cruzeiro. "Tenho informação de que um pequeno grupo de traficantes entrou no Alemão pela Vila Cruzeiro, de carro, desencadeando os fatos", disse, acrescentando que "nada vai ser consertado de uma hora pra outra depois de 30, 40 anos de abandono".
De acordo com o general, esse foi o primeiro problema desde a ocupação da Força de Pacificação, em novembro. "Isso foi uma reação ao anúncio do Exército de prolongar sua permanência no local. Em dez meses de ocupação, houve em torno de quatro mil a cinco mil abordagens e só teve problema em uma".
Para o comandante, os tiros da noite de terça-feira (6) não foram disparados de dentro da área de atuação da Força de Pacificação. "Alemão e Penha não têm armas pesadas. Os tiros vieram do Morro do Adeus e da Baiana", afirmou o general Adriano Pereira Júnior sobre os morros que passaram a ser ocupados pela Polícia Militar.
De acordo com o comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio de Brito Duarte, o efetivo nos Morros do Adeus, em Bonsucesso, e Baiana, em Ramos, terá 120 policiais. "Vamos dar prioridade aos pontos altos e mais 11 pontos ao redor dos morros. São 120 homens que vão ocupar Adeus e Baiana dia e noite, por tempo indeterminado", disse o coronel.
Ao todo, de acordo com a Força de Pacificação, 1,7 mil homens do Exército e das polícias Civil e Militar, ocupam o Alemão. E, segundo general Adriano Pereira Júnior, esse efetivo ganhará o reforço de mais 100 ou 200 homens. "A paz ainda não é completa porque muitos moradores ainda temem a volta dos criminosos que fugiram quando houve a ocupação. Alemão e Penha são pontos de honra para nós", garantiu o general.
Ainda segundo o comandante, no local, há policiamento ostensivo e 420 patrulhas diárias, que ele considera um esquema muito eficiente. Mesmo assim, afirmou que vai aumentar o efetivo e fazer mais revistas em pessoas com atitudes suspeitas, mas sem interferir a ponto de ser inconveniente à população. "(Alemão) Não é praça de guerra, não podemos prejudicar a vida da população", afirmou o general Adriano Pereira Junior, acrescentando que o direito de ir e vir das pessoas tem que ser respeitado.

O Teleférico do Alemão passa por uma inspeção para verificar se foi atingido durante o tiroteio iniciado na noite de terça-feira (6). Segundo a SuperVia, ele não funcionaria nesta quarta-feira por causa do feriado.
Exército nega morte de jovem por bala perdida
O Comando Militar do Leste negou que uma menina de 15 anos tenha morrido, após ser atingida por bala perdida. "Não passou de uma armadilha do tráfico", garantiu o comandante, acrescentando que os policiais procuraram pela suposta vítima em todos os hospitais da região e nada encontraram.
Na manhã de quarta-feira, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) esteve no Alemão para conversar com moradores. "Realmente diminuiu o número de homicídios no Alemão, e isso é ótimo. Mas também é necessário ter hospital, escola, e isso não tem. Já tem tempo que estamos planejando fazer uma audiência pública, precisamos saber quais são as políticas públicas pra cá, o planejamento", afirmou o deputado. "Por enquanto, o Exército está ocupando um lugar que deve ser da polícia".